Sentir uma felicidade muito intensa pode provocar uma reação inesperada no coração. Embora seja rara, a chamada “síndrome do coração feliz” pode alterar temporariamente o funcionamento do órgão e, em casos graves, causar complicações que colocam a vida em risco.
A condição representa uma manifestação da cardiomiopatia de Takotsubo, mais conhecida como “síndrome do coração partido”. Entretanto, apesar do nome mais popular, situações negativas não são os únicos gatilhos. Eventos extremamente felizes também podem desencadear o problema.
Entre os episódios já associados à síndrome estão casamentos, festas de aniversário, conquistas esportivas e até o recebimento de prêmios de loteria.
Caso chamou atenção após festa de casamento
Um dos casos relatados envolveu uma mulher de 65 anos. Depois de participar de uma festa de casamento, ela começou a sentir dor no peito. Além disso, os sintomas continuaram durante três dias, o que levou a paciente a procurar atendimento médico.
Inicialmente, um eletrocardiograma apresentou alterações compatíveis com um possível infarto. No entanto, uma nova avaliação mostrou mudanças diferentes no funcionamento cardíaco. Posteriormente, um exame de imagem confirmou a cardiomiopatia de Takotsubo.
O relato apareceu na revista científica Oxford Medical Case Reports e chamou atenção justamente porque o episódio ocorreu após uma experiência positiva.
Emoções fortes podem desencadear a síndrome
A cardiomiopatia de Takotsubo provoca uma alteração temporária na capacidade do coração de se contrair e bombear sangue. Normalmente, porém, os médicos não encontram uma obstrução dos vasos sanguíneos que explique o quadro.
Desde que pesquisadores descreveram a síndrome pela primeira vez, em 1990, situações de forte estresse emocional ou físico aparecem entre seus principais gatilhos. Por exemplo, morte de pessoas próximas, término de relacionamentos e perda de emprego podem desencadear a condição.
Contudo, pesquisadores também encontraram casos relacionados à felicidade intensa.
Um estudo com 1.750 pacientes diagnosticados com Takotsubo identificou 465 episódios associados a acontecimentos negativos. Por outro lado, 20 pessoas desenvolveram a síndrome depois de experiências positivas. A partir dessas ocorrências, a manifestação ganhou informalmente o nome de “síndrome do coração feliz”.
Sintomas podem parecer um infarto
Um dos principais riscos está justamente na semelhança entre os sintomas da Takotsubo e os de um infarto. A pessoa pode apresentar dor no peito e alterações no eletrocardiograma, por exemplo.
Por isso, somente uma avaliação médica pode diferenciar as condições. Enquanto o infarto geralmente envolve uma obstrução que compromete o fluxo sanguíneo, a Takotsubo costuma ocorrer sem esse bloqueio.
A síndrome é considerada rara e corresponde a aproximadamente 1% a 2% dos casos inicialmente investigados como síndrome coronariana aguda.
Ainda assim, a condição pode provocar complicações graves. Portanto, uma pessoa que apresenta dor no peito após uma emoção intensa não deve atribuir o sintoma apenas ao estresse ou à euforia e precisa buscar atendimento médico.
Felicidade não faz mal à saúde
Apesar dos casos de “coração feliz”, as evidências não indicam que ser feliz normalmente represente um risco para o coração. Pelo contrário, pesquisas relacionam o bem-estar emocional a benefícios cardiovasculares no longo prazo.
Um estudo realizado por pesquisadores do Columbia University Medical Center acompanhou 1.739 adultos saudáveis durante dez anos. Os pesquisadores avaliaram fatores como ansiedade, depressão, hostilidade e emoções positivas.
Como resultado, níveis maiores de emoções positivas apareceram associados a menor risco de doenças cardíacas. Assim, o problema relacionado à síndrome de Takotsubo não está na felicidade cotidiana, mas em uma reação rara do organismo diante de emoções excepcionalmente intensas.
Fonte: Janayna Carvalho – Jornalista Viva Goiás
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