Há uma frase antiga que atravessa gerações: “Antes só do que mal acompanhada.” Infelizmente, diante da realidade que tantas mulheres vivem, ela ganhou uma versão ainda mais dolorosa: antes só do que assassinada.
Todos os dias, mulheres são mortas por homens que um dia disseram amar. Namorados, ex-namorados, maridos, ex-maridos. Em muitos casos, o feminicídio não acontece por impulso. Ele é precedido por controle, ameaças, perseguição, ciúmes excessivos, manipulação emocional e violência psicológica. São sinais que, muitas vezes, são minimizados em nome do amor.
Quantas mulheres já ouviram frases como: “ele faz isso porque te ama”, “ele só tem medo de te perder”, “homem é ciumento mesmo”? A romantização do controle ainda custa vidas.
O caso recente da jovem assassinada em Goiatuba reacende um alerta que nunca deveria ser ignorado. Segundo as investigações, o suspeito chegou a ligar para a mãe da vítima antes do crime e teria dito que ela poderia se preparar para o velório da filha. Uma ameaça tão cruel quanto reveladora de um comportamento que, infelizmente, não surge do nada.

Nenhuma mulher deveria viver com medo de terminar um relacionamento. Nenhuma deveria precisar escolher entre permanecer em uma relação abusiva ou correr o risco de ser morta por tentar sair dela.
É claro que romper um relacionamento abusivo nem sempre é simples. Muitas vítimas enfrentam dependência financeira, medo, chantagem emocional, filhos envolvidos ou ameaças constantes. Por isso, responsabilizar a mulher pela violência que sofre nunca será a resposta. A responsabilidade é sempre de quem agride.
Mas também é verdade que precisamos aprender a identificar os sinais. O parceiro que controla suas roupas, afasta você dos amigos e da família, exige sua localização o tempo todo, invade sua privacidade, explode de raiva por qualquer motivo e trata o ciúme como prova de amor não está demonstrando cuidado. Está construindo um ambiente de violência.
Como sociedade, também precisamos abandonar a cultura de perguntar “por que ela não foi embora?” e começar a perguntar “por que ele acreditou que tinha o direito de tirar a vida dela?”.
O feminicídio não começa no momento do disparo, da facada ou da agressão fatal. Ele começa muito antes, quando a violência é normalizada, quando os sinais são ignorados e quando a posse é confundida com amor.
Se este texto fizer uma mulher refletir sobre o relacionamento que vive, conversar com alguém de confiança ou buscar ajuda, ele já terá cumprido seu papel.
Porque nenhuma história de amor deveria terminar em uma lápide. Porque nenhuma mulher deveria morrer por dizer “não”. E porque, por mais dura que essa frase pareça, ela nunca foi tão necessária:
Antes só do que assassinada.

Janayna Carvalho é jornalista e colunista do portal Viva Goiás



