Durante anos, o torcedor brasileiro se acostumou a exigir espetáculo desde o primeiro minuto de uma Copa do Mundo. Qualquer empate vira crise. Qualquer atuação abaixo do esperado se transforma em motivo para decretar o fracasso. Carlo Ancelotti parece ter chegado justamente para romper essa lógica.
Desde sua apresentação, o italiano deixou claro que uma Copa não é decidida na estreia. Mais do que montar um time bonito, sua prioridade sempre foi construir uma equipe competitiva para o momento em que não existe mais margem para erro: o mata-mata.
As críticas apareceram após os primeiros jogos.
O Brasil ainda buscava equilíbrio, alternava momentos de domínio com períodos de instabilidade e dava sinais de que o encaixe coletivo ainda estava em construção. Enquanto parte da torcida cobrava mudanças radicais, Ancelotti insistia na calma.
Não era teimosia. Era planejamento. A cada partida, a Seleção reduziu os erros, aumentou a intensidade sem a bola e passou a controlar melhor os jogos. Após a vitória sobre a Escócia, o próprio treinador resumiu o sentimento ao afirmar que o Brasil finalmente jogava “como uma equipe”. A declaração pode parecer simples, mas traduz exatamente o que ele buscava desde o início.
O plano nunca foi encantar na fase de grupos. O plano era sobreviver, evoluir e chegar ao mata-mata com uma identidade definida.
E esse tipo de estratégia faz todo sentido quando observamos a história das Copas do Mundo. Raramente o campeão é aquele que joga o melhor futebol logo na estreia. Normalmente, é quem cresce durante a competição, aprende com os próprios erros e alcança seu melhor nível justamente nas partidas decisivas.
Agora, após vencer nos 16 avos de final, começa o verdadeiro Mundial para o Brasil. Toda a preparação realizada até aqui será colocada à prova. Não basta mais controlar o jogo. É preciso decidir. Não basta mais mostrar evolução. É preciso vencer.
A Seleção confirmar dentro de campo aquilo que Ancelotti vem construindo desde o início, talvez muitos percebam que o treinador nunca esteve preocupado em conquistar manchetes na fase de grupos. Seu objetivo sempre foi muito maior.
Em Copa do Mundo, o que entra para a história não é quem começou melhor. É quem termina levantando a taça. Talvez esse sempre tenha sido o verdadeiro plano de Carlo Ancelotti.
Janayna Carvalho é jornalista e colunista do Portal Viva Goiás



