Negócios que nasceram dentro de casa hoje sustentam famílias, geram empregos e ajudam a redesenhar a economia local
Enquanto Gabriella Ribeiro acompanha a produção dos cosméticos artesanais que começaram como uma solução para uma alergia familiar, Marlene Holinda faz os últimos ajustes em mais um vestido de noiva entregue em seu ateliê. Separadas por alguns quilômetros em Anápolis (GO), as duas têm trajetórias diferentes, mas compartilham uma mesma realidade: transformaram negócios que nasceram dentro de casa na principal fonte de renda de suas famílias.
O caminho até esse resultado, no entanto, foi marcado por desafios, inseguranças e muitas horas de trabalho.
Cosméticos artesanais viraram a principal renda da família

Foi para cuidar da própria saúde e da filha que Gabriella começou a produzir cosméticos naturais de forma artesanal. O que nasceu como uma necessidade doméstica acabou se transformando em empresa. “Eu não imaginava, mesmo. O negócio foi crescendo muito rápido”, conta.
Mãe de seis filhos, ela buscou fórmulas mais limpas para uso próprio. Com o crescimento das vendas pelas redes sociais, o aumento da procura exigiu mais estrutura. Hoje, a empresa conta com três funcionárias.
Pela manhã, Gabriella e o marido, Samuel, cuidam da produção dos cremes e da purificação das matérias-primas. À tarde, a equipe assume a produção dos sabonetes, a rotulagem e o fechamento dos pedidos. “Eu e Samuel só paramos quando vamos dormir”, diz.
O crescimento do negócio foi tão rápido que Samuel decidiu deixar o emprego formal para trabalhar exclusivamente na empresa da família. “No início foi difícil porque todos chamaram ele de louco por largar um concurso. Mas seguimos com nosso sonho”, relembra.
Da costura em casa ao próprio ateliê
Décadas antes do crescimento das vendas pelas redes sociais, Marlene Holinda já transformava trabalho manual em renda dentro de casa. A relação dela com a costura começou aos 13 anos, em um curso oferecido pela Prefeitura de Anápolis.
“Eu não tinha dinheiro para fazer outro curso depois, então comecei com o que já tinha aprendido, fazendo roupas para amigas”, lembra.
O que começou de forma simples acabou se tornando profissão. Depois de perder um bebê durante a gravidez, Marlene decidiu deixar o emprego formal e trabalhar por conta própria. “Foi muito doloroso para mim. Quando voltei da licença-maternidade sem filho, pedi demissão e comecei a trabalhar para mim”, disse.
Durante quase 20 anos, ela atendeu clientes dentro de casa. Com o passar dos anos, construiu o próprio negócio. Hoje, o Ateliê Ana Noivas funciona em sede própria e emprega duas pessoas.

“Comecei em uma sala da casa e hoje tenho o ateliê montado. O momento em que percebi que o negócio tinha crescido foi quando consegui construir a parte de cima”, afirma.
A trajetória também foi marcada por momentos difíceis. Durante a pandemia, Marlene viu o faturamento desaparecer enquanto acumulava uma dívida de quase R$ 100 mil referente à ampliação do espaço.“Fiquei seis meses sem trabalhar e com uma dívida de quase cem mil reais.” Mesmo assim, decidiu continuar.
“As dificuldades vêm para o nosso crescimento. Se desistirmos na primeira ou segunda dificuldade, não conseguimos realizar nossos sonhos.”
Hoje, além da independência financeira, ela divide o negócio com a filha, que trabalha ao seu lado no ateliê.
Histórias que refletem uma transformação maior
As histórias de Gabriella e Marlene estão longe de ser casos isolados. Elas representam uma transformação silenciosa que vem mudando o perfil dos pequenos negócios em Goiás e fortalecendo o papel das mulheres na economia.
Dados do Sebrae Goiás mostram que o estado possui mais de 518 mil microempreendedores individuais (MEIs) ativos, responsáveis por 54% dos pequenos negócios goianos. As mulheres representam 44% desse universo e concentram atuação principalmente nos setores de beleza, alimentação, vestuário e comércio.
O levantamento também mostra que 38% das empreendedoras administram seus negócios diretamente de casa, realidade semelhante à vivida por Gabriella e Marlene nos primeiros anos de suas trajetórias.

Segundo o analista do Sebrae Goiás, Fausto Valentino Silva, o empreendedorismo feminino deixou de ocupar um papel secundário no orçamento doméstico. “Hoje, 76% das empreendedoras goianas afirmam que o negócio é a principal fonte de renda da família e mais da metade delas é responsável pelo sustento do lar. O empreendedorismo feminino deixou de ser uma ajuda no orçamento para se tornar o motor econômico de muitas famílias”, afirma.
Anápolis se destaca entre os municípios que concentram o maior número de mulheres empreendedoras do estado. No município, as microempresas representam 87% das empresas registradas e os MEIs somam quase 33 mil negócios ativos.
Crescimento vem acompanhado de desafios
Apesar do avanço, os obstáculos permanecem. Em Goiás, o tempo médio de vida de um MEI é de 3,2 anos e a taxa de mortalidade dos negócios chega a 59% em cinco anos. O acesso ao crédito e o preconceito continuam sendo os principais gargalos para a expansão das empresas lideradas por mulheres. “Muitas vezes até a própria família não acredita no potencial da mulher empreendedora”, afirma Marlene.
Gabriella também reconhece as dificuldades da rotina. “Não é tão fácil assim. Há muita coisa para aprender e colocar em prática.” Ainda assim, as duas compartilham o mesmo conselho para quem deseja empreender. “Mesmo com medo, comece”, diz Gabriella. “As dificuldades vêm para aprendizado”, completa Marlene.
Entre sabonetes artesanais e vestidos de noiva, as duas ajudaram a construir uma realidade retratada pelos números do Sebrae: negócios que nasceram dentro de casa deixaram de ser apenas renda complementar e passaram a sustentar famílias inteiras, movimentando a economia e ampliando o protagonismo feminino em Goiás.
Fonte: Janayna Carvalho – Jornalista do Portal Viva Goiás



